Sobre mim

 

Era ainda pequena quando comecei a perceber o ritual da “Sagrada Família” em casa dos meus avós ribatejanos. A minha avó Teodora recebia a caixa que ficava exposta na sala de jantar, rodeada de fotografias de familiares ausentes e iluminada por velas. Perguntei‑lhe um dia porquê colocar velas junto das fotografias, e ela, com um semblante solene, respondeu: “para dar luz aos mortos”.

 

Embora venha de uma família de músicos — o meu avô materno deixou mais de duas centenas de partituras escritas — a música e o fado nunca fizeram parte da minha vida. Só aos 46 anos, ao começar a aprender a tocar guitarra portuguesa, se abriu diante de mim esse território até então desconhecido.

Nesse percurso, encontrei não apenas a música e o seu estudo mais estruturado, mas também o desenho, a ilustração, a pintura e o fascínio pela madeira na construção da guitarra. O que começou como um interesse pontual transformou‑se numa reconfiguração silenciosa do meu modo de estar, trazendo consigo um renovado sentido de propósito. Percebi então que, à sua medida, também a música pode ser um gesto de continuidade, uma forma de dar luz àquilo que persiste para além da ausência. Não é, por isso, um acaso que a primeira guitarra que construí se chame Maria da Luz (na foto).

 

Não me reconheço como guitarrista, nem como luthier. A minha ligação à guitarra portuguesa é outra — mais íntima, mais silenciosa e profundamente simbólica. É através dela que me encontro com as pessoas e relembro quem já partiu, num espaço de pertença que não exige técnica, mas presença emocional. A guitarra surge, assim, como ponto de encontro entre memórias, afectos e uma tradição que permanece viva — e que, em mim, se traduz num renovado sentido de propósito.

 

É um lugar onde me reconheço e compreendo quem sou.

 

Margarida Diogo Barbosa (set. 2025)

Aulas de Introdução à Guitarra Portuguesa para Jovens

A guitarra portuguesa ocupa um lugar singular no património musical nacional, sendo indissociável do fado e de um conjunto de tradições, construídas ao longo de gerações. A sua sonoridade característica, simultaneamente expressiva e rigorosa, exige não apenas domínio técnico, mas também compreensão cultural e social. O meu percurso na guitarra portuguesa profundamente ligado ao meu interesse pelas tradições, pela cultura portuguesa e pelas pessoas, levou‑me a reconhecer que o ensino deste instrumento deve ir além da técnica, integrando contexto cultural.

 

Foi neste enquadramento que desenvolvi um programa de aulas de introdução à guitarra portuguesa para jovens a partir dos 10 anos. Nesta fase de desenvolvimento, existe uma base particularmente favorável à aprendizagem musical, combinando capacidade cognitiva, desenvolvimento motor e abertura à construção de referências culturais.

Estas aulas assumem-se como um primeiro contacto estruturado com a guitarra portuguesa, articulando aprendizagem, escuta e enquadramento sócio-cultural, respeitando a particularidade de cada aluno e a sua predisposição musical. Mais do que ensinar a tocar, o objectivo é dar acesso a um instrumento central da cultura portuguesa, promovendo uma relação consistente e progressiva, onde experimentação, técnica e contexto se desenvolvem de forma integrada.